o Carteiro

Com o início na década de mil novecentos e setenta e numa localidade composta por habitações que na sua maioria se implantam sobre os Lombos que moldam a envolvente geográfica da ilha, que do seu desenho resulta o traço da erosão dos tempos, formado pelo percurso das ribeiras barulhentas que correm a todo o custo até ao seu destino pretendido, o oceano; e, com a população maioritariamente a viver da abundância dos seus terrenos agrícolas; nas épocas em que a situação política da Região e do País era atravessada pela insegurança do temível ultramar, cujas consequências se espalhavam pela emigração em massa duma juventude pouco formada e que partia para a sorte na esperança de alcançar um futuro melhor, a correspondência pela via Internet de entre familiares, seus entes queridos, que muitas das vezes partiram ainda crianças, era inexistente; telemóveis; computadores e coisas do género nessa época nem se ouviam falar!

 

Sobre os céus escuros apenas iluminados pela Lua e naquelas manhãs que afinal eram ainda madrugada, dava-se o inicio à rotina de um trabalho que outrora nunca se fez acompanhar das disponibilidades tecnológicas que hoje a todos facilita a vida, vinte e dois quilómetros eram a sina diária de entre as subidas ao pico às descidas ao calhau (medidas calculadas periodicamente através de conta-quilómetros portáteis para fins estatísticos dos CTT), feitas a pé pelo carteiro, que se fazia acompanhar de uma mala carregada de correspondência!... Sol, chuva, vento?... Seguir é obrigatório!

 

(...) Com início ao Convento das Vinhas, no Lombo do Salão, a descida até à vila da Calheta seria o primeiro dos desafios a pé de um dia de trabalho que já havia se iniciado há algumas horas no sentido de preparação de toda carga destinada ao seu giro. A acompanhar-se de uma bolsa de cabedal bem carregada e levada à mão esquerda, bem como, de um montão de entre jornais a envelopes levados ao molho no braço direito; de uniforme a rigor e com a corneta bem afinada, chega à hora de fazer-se ao caminho... toca a andar!

 

Uma vez concluída a primeira descida, sendo o percurso rotineiro e como não há tempo a perder, é o momento de se iniciar o percurso seguinte, a subida ao topo do primeiro Lombo, o Lombo do Doutor! Será este o próximo objetivo! Para ficarmos com uma ideia, esta subida a pique corresponderá aproximadamente a um terço do trajeto total do dia! Entre a estrada municipal, às veredas habitadas e até aos campos de cultivo, de missão levada ao peito, sempre acompanhado pelas caras sorridentes de quem avista finalmente o carteiro, passo a passo, por entre entregas e recebimentos de correspondência; reformas; jornais e por entre cumprimentos e conversas rápidas, finalmente atingido o primeiro topo, o cimo do Lombo! Pois o dia já vai a meio!...

 

A travessia por entre os Lombos era feita lá em cima! De mala na mão, pela vereda calçada que fazia a sua ligação e conhecida por vereda do "Barreiro"; o tal “V” provocado pela erosão da ribeira; que tem na sua base a ponte que testemunha a água debaixo de si; ora desce; ora sobe e, uma vez deste lado e com o suor já a molhar-lhe a roupa, dava-se início à segunda parte do giro do dia! A descida!

 

Do cimo do Lombo da Atouguia, por entre as veredas e os caminhos municipais; da estrada Regional até ao último cantinho habitado, a correria repetia-se todos os dias! O João; a Maria; a Joaquina; o vendeiro; o avô; a tia... todos esperam pelo carteiro! O objetivo passaria por alcançar a base do Lombo, a Serra D’Água; o calhau!... Quando finalmente alcançada a vila da Calheta estava dado como concluído o seu percurso a pé do dia, mas não o seu trabalho! Ficaria apenas a faltar a tarefa administrativa, que na estação dos Correios passava por organizar a correspondência que trazia consigo e já preparar parte do próximo dia!...  

 

Finalmente chegara a hora do regresso; o período para o seu merecido descanso! Pois era já findo o cansativo e dia!... e foram assim por mais de trinta anos de missão diária!...  

 

 

Por moça singela se apaixonou

Que prá outra banda lá morava

Da sua vida tudo se transformou

Para o destino que o aguardava

 

Em harmonia uniram-se os laços

Do princípio da vida conjugal

Às energias juntaram-se os pedaços

Para sua missão longa e leal

 

Da união, o início da luta a dois

E do lar, o de se estar a preencher

De que era antes ao que será depois

Foram quatro a vir descender

 

- Quirino Vieira, 25-05-2019

 

Carteiro_Foto.jpg

 

publicado por qvieira às 10:53 | link do post