As "Santinhas"

As “Santinhas” eram duas irmãs, a Maria e a Maria!

 

Foram duas Marias irmãs de sangue, idosas de postura arrebitada e atlética, solteiras que sempre viveram juntas! Devotas da igreja católica e fiéis aos trabalhos de uma agricultura que lhes foi garantindo o sustento. Nas suas longas vidas prevaleceu a simplicidade! Muito organizadas eram as "santinhas" e com hábitos de bom zelo, generosas e bem educadas! Uma pilha de décadas na bagagem destas irmãs onde durante os tempos nelas se foi acumulando sabedoria aos montões!... Quilómetros a fio de água de giro para rega e milhares de sinfonias matinais entoadas pelos seus despertadores da capoeira (de minha má memória) foram preenchendo as suas bem determinadas missões e o fazer jus das suas partes na esfera dos vivos...

 

A mais nova sabia ler e escrever o quanto baste, a Maria! Já a outra não, a outra Maria, a mais velha, completava o cérebro das duas! Numa espécie de relações públicas desta dupla, era a mais velha que às representava! Apesar de entre elas tudo ser detalhadamente controlado pela outra mais arrebitada, a Maria mais nova! As santinhas eram pessoas sociáveis, davam-se bem com toda a gente! Tudo nelas parecia ensaiado! Peguilhavam-se, volta e meia a envolvente ao choque de ideias fervia, sou testemunha. Algumas vezes deste lado acenei no sentido de lhes repor a ordem! Era tudo sereno e fácil, tudo rapidamente se recomponha! Completavam-se uma à outra e tinham consciência de tal importância, tudo funcionou entre estas irmãs Marias como um sistema, onde unidas tudo se fundamentava.

 

O ritmo sincronizado e ligeiramente acelerado entre elas perfilou o frequente que às caracterizava! As correrias na alvorada precedente ao nascer do sol, nos seus campos agrícolas e os homens contratados às suas responsabilidades para trabalho de enxada, o terço rezado em voz alta ao cair das noites, iam preenchendo o velho ditado de “deitar cedo e o cedo erguer…” de duas vidas onde o longo ciclo se pautou por escassas mudanças de rotina!

 

A sombra das folhas das vinhas cheirosas e frescas de uva americana, que cobria o quintal do lar por elas compartilhado e os três ou quatro degraus da entrada que sempre serviram de assentos para o habitual repouso e observatório nas tardes escaldantes de verão, preencheram um cartaz de duas manas em que a harmonia se descarrilou com a partida da Maria mais velha!... A Maria mais nova hoje está ainda viva e em boas mãos!...

 

- Quirino Vieira, 17-10-2018

publicado por qvieira às 16:54 | link do post